Escritor Otto Augusto

 

PRELÚDIO

 

Em uma tarde de março conversavam algumas nuvens e o homem, quando este disse:

— Vêde, uma mulher.  Vou descer e cumprimentá-la pelo seu dia

— Sim, mas o que dirás a ela? Indagaram curiosas, as nuvenzinhas.

— Direi “És bela”

— És bela? Apenas isso? Mas o que esta frase iria acrescentar? Afinal, tu sabes, a beleza da Mulher já foi por demais reverenciada através da história.  A lindíssima Cleópatra fascinou dois césares e deteve por muito tempo o poderoso exército romano; Menelau levou os gregos a sitiar Tróia por dez anos, a fim de resgatar a sua Helena; na Bíblia temos que a sensual Betsabá levou o Rei Davi a cometer loucuras. O mistério da beleza feminina derrubou reinos e mudou geografias. Dize a ela algo diferente, pois.

— Não, retorquiu o homem.  Direi apenas “És bela”

— Mas vejas, continuaram as nuvens, Bethoven, Liszt e outros, gênios ou não, percorreram incansáveis as planícies da alma atrás da nota mais pura, os maiores mestres passaram as suas vidas a combinar cores e formas, todos à procura  da expressão maior da beleza da Mulher. E vais tu dizer apenas “És bela?”  Serias  assim tão ingênuo?

 — Sim, respondeu o homem, porque meu coração assim o pede.

As nuvens  alvoroçaram-se de vez.

— Obedeçamos ao coração, isto é certo. Mas não vês a simplicidade de tua assertiva? Platão, Virgílio, todos os grandes e pequenos bardos sangraram o coração à busca do verso perfeito para a beleza feminina. Goethe tinha na mulher a fonte única de inspiração. O arguto Mestre Cartola descobriu na mudez das rosas o roubo do perfume da mulher. Se tantos e tão ilustres a cobriram de magnificência, como tu podes apenas ir lá e dizer “És bela”, frase acanhada.  Não seria melhor calar-te?

        — Não, concluiu o homem, enquanto descia a colina, irei lá e falarei à mulher de sua beleza, mas não pelos reinos sucumbidos por sua causa ou os poetas prostrados aos seus pés. Ora, queridas nuvens, dissestes o certo. A beleza feminina já foi venerada com todos os sons e silêncios, sob todas as luzes e sombras. E eu sou apenas um homem simples. Mas então irei lá e direi apenas da beleza que nos acompanha durante a nossa vida.

— Mulher, direi, és bela por, no Grande Projeto da Criação, seres o instrumento principal. És bela ao nos carregar no ventre, no milagre que dá a vida.  És bela, continuarei, ao nos ajudar nos primeiros passos, pelas muitas noites de acalanto e prece que nos devota, no ensinamento das primeiras letras e contas. A tua beleza muda de nuança quando um dia a vemos passar e de repente percebemos que nosso interior experimenta pequenos júbilos, arautos do pacto da natureza. Ela resplandece na amante, mãe e companheira. E no passar dos anos, serena, torna-se um aconchego para as nossas horas de reflexão. Dito isso, concluirei com carinho:

— Mulher, és bela, simplesmente por seres mulher. Parabéns pelo teu dia.

As nuvens assentiram em coro...

Otto Augusto Sievert

 

 

 

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